R.,
Após encontros e desencontros, encontrámo-nos no Guincho ao fim de um dia de Verão antecipado. Vinhas maquilhada, nervosa e entusiasmada.
Sabias bem o que querias: uma foto a agarrar o vestido preto e a olhar para a água! Muito bem...
Com o passar das horas foste-te libertando, deixaste de pensar tanto no cabelo e nas mãos e na roupa e disseste-me quando uma onda te invadiu os pés: "Tão bom, já não sentia isto desde o Verão..." E sentiste.
Espero que tenhas gostado da experiência. Deste pedaço de tempo juntas.
Se pudesse, o que vou escrever agora, tinha sido escrito num envelope selado para só leres daqui a 50 anos, quando encontrares este livro perdido numa prateleira, mas não dá. Assim, à R. do futuro, gostava de dizer: Aposto que já não te lembras do vestido, do cabelo, ou de quaisquer outros pormenores. Aposto que a tua única memória daquele fim de tarde passado no Guincho há 50 anos, é que estavas com a tua mãe, que viste um pôr-do-sol fora de série e que as duas se deslumbraram com uma lua cheia, perfeita sobre a Baía de Cascais no regresso.
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